Depois de anos marcados pelo aumento do custo de vida e pela subida das taxas de juro, 2026 começou com alguma expectativa de alívio para os orçamentos familiares. Mas, chegados a agosto, essa sensação parece menos evidente.
A inflação já não está nos níveis excecionais registados nos últimos anos, mas os preços continuam elevados. Também no crédito, a evolução das taxas de juro não tem sido linear, mantendo-se um fator de pressão para muitas famílias.
Para uma família com o orçamento apertado, estas mudanças não são apenas indicadores económicos. Podem significar uma prestação mais elevada, menos dinheiro disponível para as despesas do dia a dia e, sobretudo, menor capacidade para fazer face a um imprevisto.
É por isso que a pergunta que devemos fazer em 2026 não é apenas se as famílias estão melhor financeiramente do que estavam há dois ou três anos. Estão realmente a respirar melhor ou estão apenas a aprender a gerir melhor o aperto?
O custo de vida continua a pesar
Uma inflação mais baixa não significa que os preços tenham regressado a valores anteriores. Significa apenas que estão a aumentar mais lentamente.
As famílias continuam a suportar despesas elevadas com a alimentação, habitação, energia, transportes, seguros e saúde. Quando grande parte do rendimento está comprometida com despesas essenciais, qualquer aumento pode obrigar a cortar noutra área.
Por isso, para avaliar a saúde financeira de uma família, não basta saber quanto ganha. É necessário perceber quanto sobra depois de pagar as despesas essenciais e os compromissos financeiros.
É nessa margem que começa a verdadeira proteção financeira.
A habitação continua no centro do problema
A casa continua a representar uma das maiores despesas das famílias e, simultaneamente, o seu principal património.
Quem tem crédito à habitação pode hoje enfrentar encargos diferentes dos verificados nos momentos de maior pressão dos últimos anos, mas a prestação continua a representar um compromisso significativo para muitos agregados. Para quem arrenda, as rendas elevadas dificultam a capacidade de poupar. E, para quem procura comprar, o preço dos imóveis continua a ser um obstáculo.
A questão não é apenas conseguir pagar a casa. É conseguir fazê-lo sem comprometer toda a restante vida financeira da família.
Quando o orçamento não chega, o crédito pode esconder o problema
Perante a falta de margem, recorrer a um cartão de crédito, a um crédito pessoal ou a pagamentos fracionados pode parecer uma solução imediata.
Mas o crédito não elimina uma dificuldade financeira: pode apenas adiá-la e torná-la mais cara.
Recorrer pontualmente ao crédito pode fazer parte de uma decisão financeira ponderada. Já utilizá-lo de forma recorrente para pagar despesas correntes deve ser encarado como um sinal de alerta.
É aqui que a prevenção assume particular importância. Quanto mais cedo uma família reconhecer que o orçamento deixou de ser sustentável, maior será a possibilidade de encontrar soluções antes de surgir o incumprimento.
Nem todas as famílias estão preparadas para o imprevisto
A vulnerabilidade financeira não resulta apenas do nível de rendimento ou do peso das dívidas. Um acidente, um incêndio, uma inundação ou uma tempestade podem, num instante, provocar danos materiais significativos e alterar completamente a vida de uma família. Para além disso, muitas vezes, o problema não está apenas na falta de recursos. Está também na falta de informação e de capacidade para antecipar riscos.
Há famílias que desconhecem as soluções de proteção disponíveis no mercado, ou que não sabem exatamente o que está coberto pelos seus seguros ou que não avaliam se as coberturas contratadas correspondem às suas reais necessidades. Outras sabem que deveriam proteger-se, mas os seus rendimentos são tão limitados que a contratação de determinadas soluções representa uma despesa difícil de suportar.
Proteger não significa contratar tudo. Significa conhecer os riscos, perceber as soluções existentes, avaliar o que é realmente necessário e escolher de acordo com as possibilidades de cada família.
A digitalização não pode deixar ninguém para trás
A forma como lidamos com o dinheiro também está a mudar. Cada vez mais operações bancárias são realizadas através de aplicações, sites e outros canais digitais, enquanto se assiste à redução de balcões e de caixas automáticas.
A digitalização pode trazer maior rapidez e comodidade. Mas também pode criar formas de exclusão financeira, sobretudo quando não existem alternativas adequadas para quem tem dificuldades em utilizar os canais digitais.
Esta questão assume particular importância numa população cada vez mais envelhecida. Para alguns consumidores, operações que parecem ser simples, como fazer uma transferência, consultar movimentos, alterar uma autorização ou esclarecer uma dúvida, podem tornar-se tarefas difíceis quando deixa de existir um balcão próximo ou quando o acesso presencial é substituído por soluções exclusivamente digitais.
A inclusão financeira não pode ser medida apenas pela existência de serviços. É necessário garantir que as pessoas conseguem efetivamente utilizá-los de forma autónoma e segura.
Por isso, a transformação digital deve ser acompanhada de informação, apoio e alternativas acessíveis. A modernização dos serviços financeiros não pode significar que os consumidores com menor literacia digital ficam sem respostas ou dependentes da ajuda de terceiros para gerir o seu próprio dinheiro.
O verdadeiro indicador é a margem financeira
Talvez esta seja a principal questão para 2026.
Uma família pode não ter prestações em incumprimento e, ainda assim, estar vulnerável. Pode pagar todas as contas, mas não conseguir poupar. Pode ter um imóvel de elevado valor, mas não dispor de rendimento suficiente. Pode chegar ao fim do mês sem incumprimentos, mas também sem qualquer margem.
A verdadeira segurança financeira está na capacidade de enfrentar o que ainda não sabemos que vai acontecer.
Por isso, proteger as famílias significa ajudá-las a conhecer os seus contratos, avaliar o custo do crédito, controlar o orçamento, constituir uma reserva para imprevistos, conhecer as soluções de proteção disponíveis e garantir que conseguem continuar a aceder aos serviços financeiros de que necessitam.
Respirar melhor não é apenas chegar ao fim do mês sem falhar um pagamento. É chegar ao fim do mês com alguma margem para o mês seguinte, estar preparado para o que possa acontecer e ter condições para continuar a tomar decisões sobre o próprio dinheiro.
Em 2026, talvez o maior desafio não seja apenas sair do aperto. Trata-se de recuperar a margem financeira, a informação e a capacidade de escolha que permitem a uma família sentir-se verdadeiramente protegida.
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