Durante décadas, comprar uma casa foi o grande investimento de muitas famílias portuguesas.
Hoje, para uma parte significativa da população mais velha, esse imóvel pode representar um património de elevado valor, enquanto a pensão mensal deixa pouca margem para fazer face às despesas. Como transformar património em segurança financeira sem comprometer o futuro?
Para muitas famílias portuguesas, a casa própria representa o maior investimento de uma vida. Foram anos de trabalho, poupança e, em muitos casos, de pagamento de um crédito à habitação. O resultado é um património que, ao longo dos últimos anos, se valorizou significativamente.
Mas existe uma realidade aparentemente contraditória: é possível ter uma casa de elevado valor e, simultaneamente, enfrentar dificuldades para pagar as despesas do dia a dia.
Esta situação ganha particular importância numa população em envelhecimento, em que muitas pessoas vivem de pensões que deixam pouca margem, depois de suportadas as despesas essenciais.
Quando o património não se transforma em rendimento
Ter património não significa ter liquidez. Uma casa pode valer muito no mercado, mas esse valor não paga, por si só, a alimentação, a eletricidade, os medicamentos ou as despesas de saúde.
É neste contexto que começam a ganhar visibilidade soluções que permitem transformar parte do valor da habitação em dinheiro sem que o proprietário tenha necessariamente de abandonar a casa. Uma dessas soluções é a venda da propriedade com reserva de usufruto.
Na prática, o proprietário vende a propriedade do seu imóvel e mantém o usufruto, podendo continuar a viver na habitação nas condições acordadas. Recebe um determinado montante, mas deixa de ser proprietário pleno do imóvel.
Esta possibilidade tem vindo a ganhar visibilidade e já existem empresas que se dedicam especificamente a este tipo de operação. Para um cidadão com uma pensão reduzida e um imóvel de valor elevado, pode parecer uma solução evidente.
Mas será mesmo a melhor solução?
Transformar património em dinheiro tem um preço
A primeira questão a perceber é que o dinheiro recebido não constitui um rendimento adicional. Trata-se da conversão antecipada de parte de um património em liquidez. Por isso, antes de aceitar uma proposta, é essencial saber quanto vale a casa, quanto está a ser oferecido e como foi determinado esse valor.
Também é necessário compreender exatamente quais os direitos que permanecem para quem vende: durante quanto tempo poderá viver na casa, quem suporta as despesas, impostos e obras e o que acontece perante diferentes situações futuras.
Uma avaliação independente e aconselhamento jurídico podem ser importantes antes de tomar uma decisão.
E se houver outras soluções?
A venda da casa ou de parte dos direitos sobre ela não deve ser a primeira resposta a uma dificuldade financeira. Antes de avançar, importa perceber o que está na origem da necessidade de obter liquidez.
Se a casa for demasiado grande ou dispendiosa para a situação atual, poderá ser ponderada uma mudança para uma habitação mais pequena ou com menores encargos. Dependendo das circunstâncias, também podem ser consideradas soluções como o arrendamento de parte do imóvel ou outras formas de obter rendimento ou liquidez.
Não existe uma solução igual para todos. O importante é comparar alternativas e perceber qual permite melhorar a situação financeira do consumidor sem comprometer desnecessariamente a segurança futura.
A casa também é uma reserva para o futuro
Para muitas pessoas, a habitação não é apenas um investimento. É também uma forma de segurança.
Vender parte desse património pode permitir melhorar o rendimento disponível hoje, porém reduz aquilo que ficará disponível no futuro e pode também alterar o património que será transmitido aos filhos ou a outros herdeiros.
Não significa que vender a casa seja necessariamente uma má decisão. Significa que deve ser uma decisão consciente e informada, tomada depois de conhecer as consequências e de comparar alternativas.
Antes de transformar a casa em dinheiro, faça as contas:
Quanto vale o imóvel?
Quanto dinheiro preciso realmente?
Durante quanto tempo o montante recebido permitirá complementar a minha pensão?
Que direitos mantenho sobre a habitação?
Que despesas continuarei a suportar?
Que alternativas tenho?
Que património ficará para o futuro?
Estas são perguntas que devem ser respondidas antes de qualquer assinatura.
Para muitas famílias, a valorização da habitação criou uma riqueza que não se traduz necessariamente em rendimento mensal. O desafio está agora em perceber como utilizar esse património sem transformar uma dificuldade de rendimento numa perda de segurança futura.
A casa pode ser uma fonte de liquidez. Mas pode também ser a principal reserva de segurança numa fase da vida em que recuperar rendimentos é mais difícil.
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